Apresentação

“Em nosso país”, disse Alice ainda um pouco ofegante, “você normalmente chegaria em algum outro lugar, se corresse muito rápido e por muito tempo como estamos fazendo”. “Um país lento!”, disse a Rainha Vermelha. “Aqui, veja você, é preciso correr o máximo que se consegue para ficar no mesmo lugar. Se quiser ir a algum lugar, deve correr no mínimo o dobro disso! (Carroll, Lewis. Alice no país das Maravilhas).

Produção e circulação de conhecimento tornaram-se um aspecto muito importante das sociedades modernas, e a mobilidade científica tornou-se parte integral da carreira acadêmica e científica. Assim, quando se considera a relevância que as dinâmicas de imigração qualificada têm assumido, a mobilidade científica aparece como um dos modelos fundamentais de análise, tanto porque se refere ao movimento de cidadãos e cidadãs através de fronteiras nacionais e internacionais, como porque traz à tona questões que dizem respeito a conhecimento e informação, em um período em que conhecimento aparece como um recurso central para o crescimento social e econômico. Mais ainda, a mobilidade científica é uma das formas de migração qualificada que tem ganho grande visibilidade e investimentos da União Europeia em seu esforço de criar uma área europeia comum de pesquisa e investigação, iniciativas como European Research Area, Marie Curie Actions, European Network of Mobility Centers e EURAXESS atestam essa importância.

O simpósio Researchers crossing borders: Transnational scientific mobility  almeja explorar o fenômeno da mobilidade científica transnacional a partir de uma perspectiva crítica e inventiva, dando especial atenção ao caso Português. Para isso, entendemos a mobilidade científica transnacional como uma modalidade de imigração qualificada que abarca o movimento de cientistas, Professores/as, pesquisadores/as, investigadores/as, pós-doutorandos/as e estudantes de doutorado através de fronteiras, instituições, laboratórios, universidades e centros de investigação internacionais.

Propomos algumas questões para a discussão: O que significa ser um/a cientista internacional? A mobilidade científica deveria ou não ser considerada uma experiência migratória? Quais as implicações políticas da mobilidade científica? As hierarquias geopolíticas afetam essa dinâmica? Raça, etnia e nacionalidade  moldam essa experiência? Como o sexismo reflete-se na experiência das mulheres? Estarão também as práticas pós-coloniais presentes nessa dinâmica? E mais especificamente sobre o contexto português: Por que cientistas e investigadores/as internacionais vão para Portugal? Quais são os principais obstáculos que enfrentam durante essa experiência? Como Portugal pode se tornar mais atrativo para cientistas e investigadores/as internacionais? Quais os impactos das medidas de austeridade nas dinâmicas de mobilidade científica para Portugal? O passado colonial de Portugal afeta os esquemas de mobilidade científica para o país?

Almejamos trazer ideias inovadoras para o debate sobre mobilidade científica transnacional, discutindo seus aspectos políticos e sociais e delimitando um perfil inicial deste fenômeno em Portugal. Além disso, temos uma preocupação central em relação a como as desigualdades de gênero manifestam-se nesta dinâmica. Mais ainda, temos como objetivo oferecer uma compreensão analítica e original sobre a mobilidade científica transnacional esperando contribuir para o seu desenvolvimento.